I – INTRODUÇÃO
Não é por acaso que os professores queixam-se, cada vez com mais veemência, das dificuldades de provocar motivação, de ter assuntos interessados. Especialmente quando boa parte dos alunos, especialmente adolescentes e pré-adolescentes com muito mais interessantes em “passar de ano” (se possível com o mínimo de estudo, leituras e trabalho) do que aprender. Apoiados pela critica contundente – nem sempre verdadeira – que fazem aos que classificam como “maus” professores (dão aulas “chatas”, “fora da realidade”, dão “provas que os estressam” e outras), com esses bons pretextos para reclamar e, encoberto o motivo real (nada ou muito pouco estudar), na sua ingenuidade e falta de visão em longo prazo, tornam-se os mais prejudicados no processo.
II – RELAÇÃO PROFESSOR E ALUNO
Uma turma com mais de 70% de alunos reprovados em uma determinada matéria, provavelmente deve ter como causa, a forma pelo qual o professor ministrou suas aulas, sem a menor dúvida, está pedagogicamente correta. No passado, ninguém buscava culpados entre os docentes. Era simples: O aluno é que não havia estudado, ou tinha sido desatento, enfim, o culpado era sempre o aluno. Hoje, felizmente, reconhece-se que a falha pode estar no processo, na metodologia, na didática inadequada do professor ou na avaliação. Em conseqüência, muitas pessoas, leigas e até mesmo alguns profissionais da área de educacional, passaram a atribui todas as “culpas” ao professor. Esta é uma distorção grosseira. Se, realmente, o problema existe, é, de fato, o aluno que não estuda que está desatento e desinteressado. Apontar o professor como único responsável pelos fracassos do ensino é mascarar a realidade, especialmente quando isso ocorre sem uma analise profunda e concreta do processo desenvolvido (ZAGURY, 1999).
Outro exemplo: A prova era considerada “O” instrumento de avaliação. Era prova escrita, prova oral, hoje, sabemos que a avaliação deve ser muito mais ampla, uma prova só não mede nada, podem-se cometer sérias injustiças com o aluno. Certíssimo do ponto de vista pedagógico. Só que mais uma vez, generalizando e interpretando erroneamente um conceito que poderia ter trazido muito progresso à causa da educação de qualidade, a má interpretação acabou constituindo um bordão, repetido à exaustão especialmente por alunos, pais de alunos (em geral estudantes com baixo desempenho) e até por pessoas da área: “prova não mede nada”. Isso é uma inverdade, prova mede sim, tem sua hora e seu lugar. E, muitas vezes, ainda pe um instrumento que avalia com muito mais precisão do que certos tipos de avaliação qualitativa que, na verdade, de qualitativa nada têm (ZAGURY, 1999).
Segundo a autora acima, ao professor, intimidado pela segurança com que especialistas apresentam cada nova “moda” pedagógica, resta calar e levar sua sala de aula, aquilo que agora é o “novo grito” na sucessão de modelos e linhas que a cada década, surge no horizonte. Tentam compreender, colocar em prática aquilo que lhes afirmam ser o melhor, do ponto de vista didático. Poucas vezes, porém, recebem treinamento para fazê-lo adequadamente. E, quando, depois de muitas dificuldades, estão começando a ter segurança (ou pelo menos compreendendo) a nova metodologia, ela é descartada, assim, sem mais nem menos, dando lugar e outra, mais moderna e, portanto – melhor.
A relação professor x aluno sofreu o mesmo processo, com alguns agravantes. Em torno da década 60, o modelo tradicional de ensino começa a ser contestado. Chegam às salas de aula, ainda que timidamente, as idéias de grandes nomes da Pedagogia. Suas teorias, muitas delas datadas do início do século, cinqüenta anos depois, começam a influenciar o ideário dos professores. Da Escola Ativa, o “aprender a aprender” deixou marcas profundas. Também a Teoria da Não-Diretividade alterou inequivocamente a relação professor x aluno, trazendo o modelo psicodinâmico para a escola. Sai de cena o professor, surge o “facilitador”.
Mas, pergunta-se angustiado, de si para si, “na prática, o que significa isso?”. Como transformar essas teorias, tão ricas, tão novas e tão diferentes, em “fazer pedagógico?” Como atuar para ser um professor moderno, não tradicional, não ultrapassado? Como ensinar ao aluno o “aprender a aprender?” Como cumprir o programa que insistem em lhe cobrar, e, ao mesmo tempo, atender ao que o aluno gosta e quer fazer? Como fazer cumprir o “contrato de trabalho”, numa sala de aula que abriga trinta, quarenta alunos, quarenta quereres diversos, quarenta opiniões, geradas por objetivos pessoais também diversos? Alguns realmente interessados em aprender, mas outros tantos – como é característico em especial na adolescência – movidos apenas pelo hedonismo, pelo pragmatismo e utilitarismo? Cada um esforçando-se o mínimo possível, querendo, na verdade, namorar mais, conversar com os amigos e saber menos, aprender mesmo. Todos, porém,desejando e julgando ser direito seu ser aprovado, passar de ano, formar-se, afinal “só professor ruim reprova aluno, não é isso que andam dizendo por ai?”. Como conciliar tantas mudanças e desafios novos, se as dificuldades mais simples não são sanadas?
Essas considerações são agravadas ainda mais se deslocamos nosso enfoque dos grandes centros urbanos, nos quais o professor, tanto do ensino público quanto do particular, recebe (ainda que não da forma como deveria), algum treinamento. Se voltarmos nosso pensamento para os professores da área rural ou da periferia das grandes cidades, certamente encontraremos um quarto ainda mais grave.
Ainda existem no Brasil professores leigos; muitos não chegam a receber nem meio salário mínimo mensalmente; mas, como tudo isso – deseja-se que o professor, assim, de hora para outra, aprenda e mude sua metodologia com entusiasmo e empenho, mesmo que essa nova forma de ensinar ainda não tenha sido testada, nem ao menos adaptada à realidade de nossas classes multisseriadas e de nossos professores mal formados. Posturas desse tipo realmente melhoram a qualidade da Educação? A velocidade das transformações é intensa. A cada dia, uma conhecida e muito utilizada técnica de ensino é condenada e banida, considerada “antiquada”. Qualquer intervenção em termos de controle de disciplina ou de avaliação é vista como ameaçadoras da aprendizagem. Os melhores professores são aqueles cujos alunos “os adoram”, não importa tanto se ensinando ou não. O importante mesmo agora, é entender as dificuldades, olhar os problemas emocionais e ajudar a superá-los. Professor torna-se sinônimo de “especialista em relações humanas”. Aliás, o termo “professor” parece até que nem deve mais ser empregado. Educador é muito mais amplo...Como se mudar o nome, mudasse o comportamento! E ninguém entende por que os alunos andam tão indisciplinados.
Segundo as ultimas tendências, que reprova é mau professor. O rendimento do aluno depende diretamente do trabalho docente. Se ele ensina bem, o aluno aprende. Se o aluno não aprende, a culpa é do professor que não trabalhou direitinho. O que se pode até ser verdade às vezes, mas nem sempre. Ignorar que, em algumas ocasiões, o professor recebe turmas em que a maioria dos alunos encontra-se totalmente despreparada pra as novas aprendizagens, por falta de pré-requisitos ou por deficiência anteriores ou por problemas familiares e sociais, é desconhecer a realidade da sala de aula brasileira. Aliás, este tipo de situação vem se tornando cada vez mais comum. Mas, surpreendentemente nesse exato momento, as secretarias de educação de vários estados brasileiros começam a baixar normas que, de certa forma, pressionam o professor no sentido de diminuir o número de alunos com conceitos mais baixos. Claro, não é uma coisa explicita, mas há sim, por parte do professor a percepção de que deve evitar reprovar. Não que ele tenha que aprovar todo mundo, mas a reprovação do aluno deve ser evitada, o mais possível. Aprovar é uma felicidade para todo professor consciente, mas aprovar quem não alcançou os objetivos educacionais mínimos da série, é tremendamente frustrante e, o que é mais grave, acaba condenando os alunos ao fracasso maior, que é o fracasso social. São mecanismos sutis de pressão como relatórios individuais, longos e tediosos, que cada professor tem que preencher para justificar um “D” ou um “E”.
E aí eu me pergunto: mas não é um dos mais modernos ideais de hoje em Educação, a autogestão pedagógica? E que desconfiança é essa somente sobre o professor que dá um “D” ao aluno? Por que será que não se exige um relatório cansativo também para cada “A” que o professor dá? Qual será a fundamentação teórica que sustenta essa decisão? E, enfim, se as agências educacionais reconhecem ou desconfiam, por algum motivo, que o grupo docente está com problemas de formação inadequada do ponto de vista pedagógico, porque não se faz um retreinamento sério, para corrigir aquilo que insistem em apresentar como distorção da prática docente? “A retenção, a reprovação traumatiza o aluno e é responsável pela evasão escolar”, afirmam muitos especialistas, sem, contudo, mostrar estudos científicos que comprovem estas afirmativas.
Na verdade, por trás, dessas medidas, o que se deseja mesmo, é melhorar o fluxo de vagas nas escolas públicas, diminuir a evasão e a repetência. E, na particular, pode ser um recurso para não se perder alunos para a concorrência. A aprovação absoluta seria um objetivo espetacular, se, obviamente, estivesse amparada por medidas que, realmente, desse ao professor a possibilidade de concretizar, na prática, um trabalho de qualidade tal, que possibilitasse a aprendizagem a aprendizagem e o alcance dos objetivos educacionais de cada série por todos os alunos. Aí sim! Que maravilha! Acabaríamos com a reprovação, as vagas estariam sobrando para atender à demanda, mas – o melhor de tudo - os alunos estariam progredindo DE VERDADE. Não teríamos o dissabor de comprovar, através do “provão” do Ensino Médio, organizado pelo próprio Ministério da Educação, o que cada professor sabe, sem necessidade de “provão” algum: que o ensino está cada vez pior, e que a cada ano, mais e mais alunos concluem a Escola Fundamental e a Média sem saber, por vezes, nem interpretar um simples texto na língua materna. A supervalorização da relação professor/aluno tornou-se uma faca de dois gumes. Se foi um avanço reconhecer que o autoritarismo precisava sair de cena, cedendo a vez ao entendimento e ao diálogo, por outro, a má interpretação do que seja uma boa relação professor/aluno, abriu caminho até para as agressões físicas graves a professores, como o caso da vice-diretora do colégio em Jacareí, em São Paulo, atingida por um tiro dado por um aluno que ela punira, ou casos de ameaças de morte quando há uma reprovação, como a quem vem sofrendo vários colegas no Brasil e fora daqui também, e outros episódios a mais, como o do professor que teve, recentemente, seu carro depredado por um aluno aborrecido por nota baixa.
E o que falar do comentário da presidente do grêmio estudantil do CEFET (uma escola técnica federal do Rio de Janeiro)? Entrevistada por jornalistas, após a explosão de uma bomba que explodira no colégio decepando a mão de uma professora, afirmou “ela não é muito querida pelos alunos”. Não estaria ela, exteriorizando a idéia de que, em se tratando de um professor pouco querido, o horror do ato terrorista e a agressão responsável estariam de certa forma justificados ou pelo menos, se tornado compreensível? Em que mundo vivemos, que a ética foi de tal forma esquecida, em função do individualismo exarcebado, do interesse pessoal e do pragmatismo enlouquecido? Pobre do Brasil, se todos pensarem desta forma! Já é alto o número de professores que, a cada dia, decidem abandonar a carreira do magistério. Os cursos de formação de professores estão esvaziados.
Se, além de tudo, os alunos acharem que podem tudo, que o professor é o culpado de tudo e que deve agir de acordo com o que desejam os alunos e não a partir de premissas educacionais definidas pelo saber técnico, então aí mesmo é que ficará raro alguém abraçar a essa já tão sofrida carreira.
CONCLUSÃO
A relação professor/aluno é importante sim no processo de aprendizagem. De preferência, ela deve ser amistosa e efetuosa DE AMBAS AS PARTES. Não pode, porém, em hipótese alguma, ser confundida com igualdade. A relação pedagógica tem que se embasar numa hierarquia (não rígida, nem autoritária), em que se deve estar bem definido para o aluno que o professor é uma autoridade, sim, na relação. Enquanto não voltamos a compreender essa coisa tão simples,veremos, a cada dia, decair mais o nível de aprendizagem dos alunos, pela incomunicabilidade que se estabelece quando se acredita que é possível ensinar e aprender sem que haja um mínimo de disciplina e organização nas salas de aula. Não se pode supervalorizar a relação professor/aluno, especialmente em detrimento do saber. O professor não é psicólogo nem psicanálise de seus alunos. Ele deve compreender e ajudar no que for possível, mas sua função principal é ensinar. E ensinar bem, dominando o conteúdo e usando adequadas técnicas de ensino e de avaliação. Mas ensinando, que esta é a função, professor é aquele que ensina. Ser professor nunca foi uma tarefa simples.
REFERÊNCIAS
ZAGURY, Tânia. Revista Pátio, ANO 2, Nº 8, FEV/ABR, 1999.
MEC – Ministério de Educação e Cultura.
CEFET – Centro Federal de Educação Tecnológica.