Itaituba,06 de Setembro de 2010.

Cai a forte chuva de janeiro, ainda inverno amazônico, contrariando o resto do país que está, nesta mesma época, desfrutando do seu verão. Na Amazônia é assim mesmo, são as estações do ano que não são definidas conforme o calendário do sul, do leste, oeste ou sudeste. Os rios estão cheios, as praias desaparecem, para só despontarem no início do verão. O verde se torna mais intenso e brinca com sua tinta, se traduzindo em mil outros tons. O Rouxinol do Rio Negro, saído dos seringais entoa para os ribeirinhos, descendentes dos migrantes nordestinos, seu lamento, sinônimo do medo de ser contrabandeado para o Japão.

         A chuva cai e lava junto a alma dos mais infelizes, cansados de remarem  nos caudalosos rios de suas vidas, ou então de roçar até à exaustão um pedaço de chão, convertido de paisagem à terra colonizada.

        Vez por outra atropela com seus grossos pingos as curvas dos rios, embassa os olhos, mas acomoda e embala, na noite, o sono justo dos homens que também são indígenas, extrativistas, quilombolas e ribeirinhos, para que no dia seguinte, no recomeço da aprendizagem sustentável com a terra, com  o rio e as árvores, possa chegar novamente à exaustão. É o ciclo que se repete, se comunica na dimensão ambiental da vida amazonense.

          Há quem não goste da chuva incessante, mas não é a gente da mata, são os que se atropelam pelas ruas esburacadas, socando a lama com pés aflitos de quem acabou de acordar para mais um dia de cidade grande, de capital do estado. Buzinas de carro, coloridos guarda-chuvas, moças de pernas de fora e sapatos molhados, crianças que ainda trazem no canto da boca o resto da tapioca ingerida na pressa de sair para a escola. 

         A chuva cai do mesmo céu, mandada pelo mesmo Deus, mas não é a mesma na mata e na cidade. Apenas uma sutil  singularidade fica mesmo por conta da identidade amazonense, o barro molhado na margem do rio, não é enxaguado do mesmo jeito que a lama da cidade, que procura se esconder nos buracos do velho asfalto.

          Enquanto que nas embarcações que se aventuram mais uma vez pelos afluentes amazônicos, os amazonenses se ajeitam, se espremem entre a filharada e os sacos de farinha, na cidade, ainda no compasso da chuva, outros tantos se acotovelam dentro dos ônibus, dos táxis, impacientes diante das freadas bruscas que por pouco não desmontam ou separam a cabeça do corpo.  

           Um ou outro, separado pela  quilometragem da geografia, são frutos de uma miscigenação que não é homogênea,  que tem nas veias o sangue do mameluco, do índio, do missionário vindo do estrangeiro, mas também do nordestino que um dia virou soldado da borracha, do homem que montou fazenda, mas no entanto, no meio de tanta heterogeneidade, a identidade brasileira ainda é maior do que qualquer outra, com selo de garantia que traz escrito, bem grande, sou amazônida. 

          A chuva é uma benção do céu, mesmo que o rio transborde que as palafitas se agoniem e suas estacas tremam diante da forças das águas, se comparada  a seca. Quando ela se instala homem fica longe de homem, não se visita, não se fala, a falta da água não deixa o barco passar.  Não se tem alimento nem medicamento, mulher não pode parir,  e os peixes aparecem mortos porque a natureza lhes roubou o legado.   No lugar do leito do rio, o que se tem é lama, marcada pelos pés de caminhantes à busca de melhor destino.

         Dizem que metade da chuva é criada pela própria floresta, e que um dia pode não mais desabar, se a queimada acontecer,  se a soja avançar, se a madeira continuar a  ser banida do seu território original.

          O planeta das águas é assim mesmo diante de sua imensurável diversidade, ora o caboclo se farta de tanta água e pescado, para depois assistir seu barco encalhado num banco qualquer de areia.

           Estar na Amazônia é num mesmo sentido entender que a floresta se apodera do humano, entregar-se na água da natureza e permitir, sem reservas,  que ela banhe o coração.

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